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1.205 vizualizaçõesFingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível

domingo, 15 fevereiro , 2009 • Categoria: Editoriais Internos (Boletim)

Gostaria de compartilhar esse texto/experiência como vocês. Leiam com atenção! Quem tem entendimento, entenda!

“Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da ‘Invisibilidade pública’. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.”
Plínio Delphino, Diário de São Paulo

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são ‘seres invisíveis, sem nome’. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da ‘invisibilidade pública’, ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400,00 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:

PESQUISADOR
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. ‘Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão’, diz.

No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo e pegou duas latinhas de refrigerante, cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: ‘E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?’ E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O QUE VOCÊ SENTIU NA PELE, TRABALHANDO COMO GARI?

Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angústia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

E DEPOIS DE OUTO ANOS TRABALHANDO COMO GARI? ISSO MUDOU?

Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando professor meu até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E QUANDO VOCÊ VOLTA PARA CASA, PARA SEU MUNDO REAL?

Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais.
Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a famílias deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um anima doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fosse uma ‘COISA’.

Ser ignorado é uma das piores sensações que existem na vida!

Pra você que entendeu alguma coisa eu proponho: MUDE. Faça diferente a partir de hoje.

A todos um abençoado dia do Senhor!

Pr. Neil Barreto

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  • Fernando Pinheiro

    Lindo ensinamentos!
    Temos vivido últimamente no que o gari faz. Limpar a sujeira dos que os outros faz.
    Mas o pior é que a limpeza não está fora e sim dentro de nós. Quando nos propomos a mudar e fazer essa limpeza as coisas começam aparecer.
    A leitura proposta pelo Senhor Pastor , é de uma significancia singular. Tenho procurado a cada dia me espelhar nas suas indicações e tenho aprendido muito nos cultos.
    Graça e a Paz e que Deus o Abençoe imensamente.
    Fernando

  • suely domingos

    Nao consigo passar pela portaria de meu predio sem comprimentar todos os porteiros.Toda vez q chega um novo lhe damos as boas vindas. Nao consigo passar o natal sem levarmos um prato bem farto de nossa ceia p o porteiro q esta na guarita e fico sempre triste por ver que desde q moro aqui somente nos aqui em casa levamos a ceia e sao 4 blocos de 5 andares. Conhecemos por nome todos os serventes do condominio, enfim…Mas, ainda e muito pouco. E ainda assim lendo esse texto me sinto envergonhada.Lembro do filme a Lista de shindler(acho q e assim q se escreve). No fim do filme ele esta sem dinheiro, tem q fugir, e chora olhando o seu anel de ouro e o boton de tem na lapela do terno, dizendo que aquelas peças dariam pra comprar + judeus e salva-los da morte. Ele diz: Quantos mais eu poderia ter salvo ? Obrigada Pastor por me fazer sentir que as vezes muito e muito pouco. Amo sua vida e Deus o abençoe.

  • nice

    Meu Deus!!!!!! isso é muito sério….muito triste …estava lendo esse depoimento e quando dei por mim estava eu chorando…não que eu ignore as pessoas mas é que me lembrei das atitudes dessas pessoas , tipo dos garis por exemplo , eles já estão tão acostumados a serem discriminados que eles têm certas atitudes como varrerem o pé das pessoas etc… é como se fosse um troco entende? é muito triste isso mesmo , com certeza as pessoas que lerem esse depoimento nao os olharão da mesma forma a começar em mim….. Pr Neil querido , um forte abraço pra vc . e obrigada pela alerta…

  • MARIBEL DA COSTA PARANHOS

    PASTOR NEIL,,CADA VEZ QUE CLICO NESSE SITE,,EU ME DEPARO COM ENSINAMENTOS MARAVILHOSOS,,ESTOU APRENDENDO A PRATICAR VERDADEIRAMENTE O EVANGELHO NO MEU DIA A DIA,,,E NÃO SOMENTE DENTRO DE UM TEMPLO FEITO POR MAOS DE hOMENS.

    E CONFESSO QUE ,,ENVERGONHEI DE MIM MESMO,QUANDO COMEÇEI A LER ESSE RELATO,,

    É BEM VERDADE, INFELIZMENTE AS PESSAOS SÓ ENXERGAM A FUNÇAO SOCIAL DO OUTRO,,,EU POR EXEMPLO,QUANDO PASSAVA POR UM GARI ,,ENXERGAVA APENAS UM AVASSOURA,,,,,MEU DEUS MAIS QUE MEDIOCRIDADE DA MINHA PARTE.

    MAS A GRAÇA E A MISERICORDIA DO SENHOR ME ALCANÇOU NO MOMENTO DESSA LEITURA,,FELIZ DAQUELE QUE OUVI O QUE O ESPIRITO DIZ….

    PASTOR NEIL,,VC E SUA FAMILIA SÃO BENÇÃO NO MEU LAR,,NA MINHA VIDA,,TÚ ÉS UM ESCOLHIDO E SEPARADO POR DEUS,,QUE O SENHOR JEOVÁ CONTINUE A TE SUSTENTAR COM SUA DESTRA FIEL!!!!!!!!!!!

    ABRAÇOS!!!! AH,,,,,, TIVE O PRAZER DE TE CONHECER PESSOALMENTE,, AQUI EM RIO GRANDE,(RS)

    FICA COM DEUS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • Vera Maldonado

    Pastor Neil, a Paz do Senhor Jesus. Fiquei comovida ao ler este seu texto/experiência.

    Fiquei me perguntando, o que leva o Ser Humano, a ignorar outro Ser Humano,
    e se achar melhor do que o seu próximo.

    É constrangedor andar na cidade (SP), ou até mesmo no emprego ou outro ambiente e ver
    como o Ser Humano é orgulhoso, a ponto de não perceber o seu próximo ali ao seu lado e,
    bem próximo a si.

    Agora imagine se Jesus tivesse feito isso também, o que seria de nós, meros mortais,
    independentes de classe social, poder aquisitivo, etc, etc, e tal. Não mas Jesus olhou
    e olha um por um nos olhos e está sempre BEM PRÓXIMO a nós, sem nenhuma restrição
    de côr, raça, posição social, e etc, etc, e tal.

    Quem o Ser Humano pensa que é, prá ignorar seu semelhante? Eu sou pedagoga e estudante
    de Psicologia 4ªnista, e fico indignada em ver esse comportamento de superioridade no Ser Humano, fazendo-o acreditar que é melhor do que o outro.

    Esse seu texto, não só me fez pensar do que o Ser Humano é capaz, como me faz refletir e pensar
    no meu próximo TCC, onde o tema/assunto, será mais ou menos parecido com o assunto da sua tese.

    Seria bom que o SH, fizesse uma auto avaliação de si mesmo, e ver como ele é visto também pelo seu próximo, ainda mesma que ocupe uma alta posição social, sempre terá alguém mais acima dele, e ignorando-o também.

    Você está de parabéns pela sua coragem, sabedoria, e determinação que Deus lhe deu.
    Sucesso prá ti, e que Deus lhe abençõe sempre no seu caminhar.

    A Paz do Senhor. Vera Maldonado