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1.681 vizualizaçõesSéculo XXI, Século da Espiritualidade?

sexta-feira, 11 setembro , 2009 • Categoria: Espiritualidade, Poesia, Vida
Leonardo Boff

Acaracterística básica do século XXI será a consolidação do processo de globalização. Esse fenômeno deve ser corretamente entendido. Ele não é apenas um dado econômico, político e cultural, afetando os seres humanos. Ele tem a ver com a história da própria Terra como Planeta. Mais e mais ganha adesão na consciência coletiva que a Terra é um superorganismo vivo que tem bilhões de anos de evolução e de história. A Terra é parte da história do universo; vida é parte da história da Terra e a vida humana é parte da história da vida. Cosmos, Terra, vida e humanidade não são realidades justapostas mas formam um todo orgânico.Como humanos, somos filhos e filhas da Terra, melhor ainda, somos a própria Terra que chegou ao seu momento de consciência, de sentimento, de liberdade e de responsabilidade. A globalização se insere dentro desta perspectiva universal. Os seres humanos que estavam dispersos em suas culturas, confinados em suas linguas e estados-nações, agora estão voltando de seu longo exílio rumo à casa comum que é o Planeta Terra. A globalização representa esse momento novo da Terra e da espécie humana. Todos se encontram como num único lugar: no Planeta Terra. A partir de agora não haverá tanto a história da Alemanha ou do Brasil, mas a história da humanidade unificada e globalizada, unida com a história da Terra.

Esse fenômeno novo foi detectado com grande impacto emocional pelos astronautas em suas naves espaciais ou da Lua. Muitos deles, pasmados, confessaram: “daqui da Lua não há distinção entre russos e norte-americanos, entre brancos e negros, entre Terra e humanidade; somos uma única realidade viva, irradiante e frágil como uma bola de Natal dependurada no fundo negro do universo; temos o mesmo destino comum; devemos aprender a amar a Terra como a nossa Casa Comum”.

A globalização traz consigo uma consciência planetária. Temos apenas esse Planeta para morar. Importa cuidar dele como cuidamos de nossas casas e de nossos corpos. E estamos todos ameaçados seja pelo arsenal de armas nucleares e químicas já construidas e armazenadas que podem destruir a biosfera, seja pela sistemática agressão aos ecosistemas que colocam em risco o futuro do Planeta. Desta vez não haverá uma arca de Noé que salve alguns e deixe pereceber os demais. Ou nos salvamos todos, biosfera e humanos, ou pereceremos todos.

Essa consciência coletiva forçará a criação de orgnismos internacionais destinados a gerenciar os interesses coletivos destinados a garantir um destino comum para todos e para o Planeta. Mais e mais nos sentiremos como uma única sociedade mundial, una pelas convergências comuns e diversa pelas expressões culturais diferentes de realizar essa unidade. Sentir-nos-emos como uma única família, a família dos humanos. Esse sentimento de família irá criar uma nova solidariedade. O escândalo de dois terços da humanidade, feita de pobres e marginalizados será tido como intolerável. Far-se-ão políticas globais para criar um tipo de sociedade mundial na qual todos possam caber com um mínimo de dignidade. Haverá mais justiça societária e menos violência no mundo.

O fenômeno da globalização e de sua correspondente consciência planetária dão origem a um outro paradigma civilizacional. Ele se caracteriza por um novo modo de relacionar-se com a natureza e com os povos, por uma nova forma de produção, por uma redefinição da subjetividade humana e do trabalho. Vamos considerar alguns destes pontos.

Na medida em que cresce a consciência planetária cresce também a convicção de que a questão do meio-ambiente, da ecologia, é o contexto de tudo, das políticas públicas, da indústria, da educação e das relações internacionais. Os recursos não renováveis estão se exaurindo e o equilíbrio físico-químico do Planeta está profundamente afetado. Ou mudamos de padrão de comportamento para com a natureza ou vamos ao encontro do pior. Por isso a sociedade do século XXI consumirá com mais responsabilidade. Fará uma nova aliança de respeito e de veneração com a natureza. O desenvolvimento se fará com a natureza e não contra ela ou à custa dela, como se fez durante séculos.

Haverá um pacto social mundial entre os povos baseado em três valores fundamentais que todos assumirão: (1) salvaguardar as condições para que o Planeta Terra possa continuar a existir e a co-evoluir; (2) garantir o futuro da espécie humana como um todo e as condições de seu ulterior desenvolvimento;(3) preservar a paz perpétua entre os povos como um meio de solução de todos os conflitos que sempre existirão.

A sociedade do século XXI será profundamente uma sociedade do conhecimento, da informação e da automação. Terá incorporado socialmente a nova natureza do processo tecnológico. A tecnologia inaugura uma nova história. Até agora as sociedades se construiram sobre a força do trabalho humano, completado e potenciado pela máquina. O trabalho construíu tudo, modificiou a natureza e originou a cultura. Agora o robot e os computadores substituem o ser humano. Milhões de trabalhadores são dispensados. Nem sequer entram a compor o exército de reserva de mão de obra a serviço do capital. São excluidos do processo produtivo.

Como ocupá-los com sentido? Como passar do pleno emprego para a plena atividade? Os trabalhadores deverão ser flexíveis, mostrar habilidade para trabalhos e atividades produtivas não vinculadas ao mercado. Possivelmente o ministério da cultura e do desporto será um dos ministérios mais importantes dos governos futuros, pois eles deverão criar alternativas de ocupação para milhões que estarão fora do mercado do trabalho assalariado. Por outra parte, o trabalho, libertado do regime de salário, assumirá seu sentido originário de atividade plasmadora da natureza a partir da criatividade humana. Os autômatos libertarão o ser humano do regime da necessidade de ter que trabalhar para viver. Eles inauguram o regime de liberdade que permite ao ser humano expressar-se de uma forma que somente ele, sujeito livre e criativo, poderá fazer.

A nova relação para com a natureza no sentido de um reencantamento e de maior benevolência fará que milhões trocarão as cidades pela vida no campo ou em cidades menores integradas ecologicamente com o meio-ambiente. A preocupação pela qualidade de vida fará que as megalópoles sejam transformadas profundamente pela recuperação dos rios, das paisagens, da pureza da atmosfera e de sua riqueza cultural.

A automação do processo produtivo que aludimos acima abrirá um espaço muito grande para a liberdade humana, para o tempo livre e para o lazer. O encontro das culturas mostrará formas diferentes de sermos humanos O homem terá menos coações sociais e mais liberdade para decidir seu projeto pessoal. Os valores da subjetividade, a singularidade de cada pessoa, suas preferências e filosofias de vida serão vistos positivamente como riqueza e não como ameaça à unidade humana. O ser humano, devido à educação ecológica incorporada em todas as instâncias, será mais sensível, mais compassivo, mas respeitoso e mais cooperativo.

A liberdade conquistada redefinirá o estatuto da família. Ela não se ordena, primeiramente, à procriação. Ela será o espaço onde a experiência do amor e da intimidade poderá ganhar estabilidade e se transformar num projeto a dois. As coações sociais e legais continuarão, pois a história da desigualdade e até de guerra entre os sexos possui milhares de anos e se cristalizou em arquétipos do inconsciente coletivo e em certos padrões de comportamento social. Mas de forma crescente os parceiros organizam suas relações de forma mais igualitária e democrática como expressão criativa de seus sentimentos e menos como ajustamento a imposições sociais.

Talvez uma das transformações culturais mais importantes no século XXI será a volta da dimensão espiritual na vida humana. O ser humano não é somente corpo que é parte do universo material. Não é também apenas psiqué, expressão da complexidade da vida que se sente a si mesmo, se torna consciente e responsável. O ser humano é também espírito, aquele momento da consciência no qual ele se sente parte e parcela do Todo, ligado e re-ligado a todas as coisas. É próprio do espírito colocar questões radicais sobre nossa origem e nosso destino e se perguntar pelo nosso lugar e pela nossa missão no conjunto dos seres do universo. Pelo espírito o ser humano decifra o sentido da seta do tempo ascendente e se inclina, reverente, face Àquele mistério que tudo colocou em marcha. Ousa chamá-lo por mil nomes ou simplesmente diz Deus.

Mais do que religião o ser humano busca espiritualidade. A religião codifica uma experiência de Deus e dá-lhe a forma de poder religioso, doutrinário, moral e ritual A espiritualidade se orienta pela experiência de encontro vivo com Deus, prescindo do poder religioso. Esse encontro é vivido como gerador de grande sentido e de entusiasmo para viver.

O século XXI será um século espiritual que valorizará os muitos caminhos espirituais e religiosos da humanidade ou criará novos. Essa espiritualidade ajudará a humanidade a ser mais corresponsável com seu destino e com o destino da Terra, mais reverente face ao mistério do mundo e mais solidária para com aqueles que sofrem. A espiritualidade dará leveza à vida e fará que os seres humanos não se sintam condenados a um vale de lágrimas mas se sintam filhos e filhas da alegria de viver juntos nesse mundo.

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  • Julio Cesar

    Trata-se de uma visão muito otimista acerca do futuro e tão utópica quanto amedrontadora. A ideia do universalismo, pela qual passamos a nos perceber em todos e em tudo como um único organismo vivo e pujante é inteligente e denota que somos capazes de não vivermos imersos em nós mesmos. Podemos continuar a ocupar o centro do universo (antropocentrismo), mas tão-somente para daí nos inserir e nos ligar com o todo, sem, contudo, descurarmos do fato de que existe em nós preservado certa autonomia, permanecendo a individualidade de cada qual.

    A ideia do Ser Único é uma abstração da mente, em que pese entendimento diverso, ou seja, uma espécie de consciência coletiva, que se fosse possuída por todas as pessoas já seria uma grande evolução social. Não faço referência aqui a nada religioso! Esse, penso, seria o verdadeiro pacto! Uma vez que haveria plena liberdade para se conectar à semelhante ideia, sem que com isso houvesse qualquer tipo de sujeição de vontades, que pudesse redundar em violações ou arbitrariedades.

    Uma grande confluência de vontades, ou um pacto, em sentido lato, é de causar espanto. É só lembrarmos que as teorias contratualistas se inspiraram justamente na ideia do pacto civil de Tomas Hobbes, para fins de preservar aqueles bens e valores mais importantes para aquela sociedade que se estabelecia no séc. XVI, entre eles, em destaque, a propriedade privada. E a segurança, por que Hobbes, filho de pais cristãos que era, salvo engano, parece ter tomado conhecimento das escrituras sagradas – da bíblia, pois baseou-se na palavra que assegura-nos que o homem é mal por natureza. Ou seja, o homem carrega em si o germe da maldade, que está na sua essência. Assim, a segurança do homem em face do homem foi a tônica também que alavancou suas ideias. A expressão “o homem é o lobo do homem” deriva daí!

    Ademais, em todo pacto, é sabido que há uma convergência de vontades, pelo menos em tese, sendo, então, fora de dúvidas que nem todos os interesses sejam preservados, isto é, deverá haver concessões das partes envolvidas, podendo redundar também, não raro, em perda de parcelas de direitos ou liberdades, em nome de um interesse maior: o pacto!

    Ou será que todos terão seus interesses preservados a toda prova? A meu ver isso é utópico! Ainda, como seria possível um pacto social sem que alguém o expressasse, baseando-se, ao menos, no sentimento médio de todas as partes envolvidas. Ou será que todos, ao mesmo tempo, estabeleceriam um acordo de vontades que seria satisfatório a todos igualmente? Haveria um representante que expressaria o sentimento geral de todas as partes contratantes? E, uma vez firmado o pacto, quem o asseguraria?

    A globalização não foi benéfica para bilhões de pessoas na Terra como sempre se defendeu. Pois a cultura, a comunicação, a educação, os benefícios do conhecimento tecnológico e da medicina, bem como a riqueza do gênio humano, não foram capazes de suplantar a velocidade dos processos produtivos do capital, que existe por si e para si, e não está a serviço do homem, ao contrário, o homem está a serviço dele.

    Aliás, o homem passa a ser objeto do capital. Torna-se coisa. Desumaniza-se, tornando-se algo, torna-se nada!

    E foi tão veloz a utilização da globalização pelo capital que deveríamos mesmo nos perguntar se o termo não se confunde com os próprios propósitos dele.

    O que é afinal essa tal globalização? Haveria globalização se a tecnologia da informação não tivesse-se desenvolvido de forma tão brutal? Sendo afirmativa a resposta, que processos produtivos estariam por trás dessa aventura? Que empresas, bancos, países, pessoas se beneficiaram desse processo? Poderíamos especular muitas respostas a esse respeito, mas, não é difícil ver, ou melhor, enxergar a escalada da riqueza de todos os personagens citados, crescente de forma assustadora. Em nome e em razão de quê? E os indivíduos, o planeta, os seres, as plantas, os mares, o ar, a espiritualidade? De que forma esse processo lhes foi benéfico? Podemos até encontrar uma ou outra resposta afirmativa, mas o fato é que, de forma geral, e em escala global, em números que impressionam pela sua grandeza, todos estes vem sendo destruídos de maneira sistemática. E, parece que o que antes poderia ser um bem, tornou o grande.

    Pergunto, não seria o caso de fazermos o sentido inverso. Ou seja, tratarmos do micro para alcançarmos em qualidade o macro. Em vez de pensarmos na globalização, que nos trás o sentido de amplo e abrangente, portanto, disperso, focarmos um ponto pequeno e, concentrando energias, alcançando, enfim, o objetivo almejado?

    Com muito respeito a todas as ideias apresentadas,
    é assim que penso.

    Abraços.