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1.194 vizualizaçõesO Terceiro Sinal do Ateísmo Religioso

terça-feira, 20 outubro , 2009 • Categoria: Editoriais Externos
Eduardo Rosa Pedreira

O Banheiro do Papa”, que foi eleito como melhor filme da última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é uma das mais contundentes denúncias, ainda que seus autores possam não ter pretendido fazê-lo com esta intenção, ao que chamamos de mercantilismo da fé. A história se passa no ano de 1988, em uma cidade uruguaia, por onde o papa João Paulo II passaria em sua vista por aquele país. Cerca de 50 mil pessoas eram esperadas para vê-lo. Os habitantes mais humildes acreditavam que, se vendessem comida e bebida a esta multidão, poderiam ficar ricos. Beto, um dos personagens, para se diferenciar comercialmente dos outros, decide construir um banheiro em frente à sua casa. Sem dúvida uma “sacada comercial” diferenciada. Com isso esperava fazer bons negócios! A visita do líder religioso perdeu o seu significado espiritual e foi enterrado pelo financeiro.

Infelizmente, esta é a lógica que parece ser majoritária hoje no âmbito religioso. A fé se tornou uma oportunidade de um grande negócio. A experiência religiosa foi transformada em um produto de consumo e, como tal, tem o seu valor monetário estipulado. Quando o espaço religioso assume forte coloração mercadológica torna-se um ambiente fértil para o surgimento de “Betos” com olhares cada vez mais perspicazes, descobridores de novos nichos de mercado, de novos produtos, estabelecendo assim forte competição e condenando os menos aptos a desaparecerem numericamente. Neste contexto mercantilista “se eu quiser falar com Deus“, tenho que pagar!

Não é difícil perceber como este mercantilismo mata Deus e se torna um dos mais sérios sintomas do ateísmo religioso. Essa transformação da fé em um negócio somente pode ser absorvida pelos fiéis por estar embalada em uma linguagem espiritual recheada de promessas alcançáveis, vindas em retorno ao investimento feito. Deus vai sendo sepultado à medida que cada cifrão é contabilizado. Uma fé essencialmente monetária torna-se o túmulo de Deus. A cada nova igreja ou iniciativa religiosa na qual, num perverso círculo vicioso, se unem lideranças inescrupulosas e um conjunto de fiéis interessado apenas nas graças advindas do sagrado, Deus vai lentamente desaparecendo. Ficam apenas os rituais vazios de sua presença, mas cheios da ganância que transforma a fé numa commodity, comprada e vendida despudoradamente.

Mas não era para ser assim! Quando Jesus entrou no templo de Jerusalém e o viu repleto de camelôs da fé com suas bancas oferecendo produtos religiosos a clientes, a indignação (virtude daqueles que têm um ideal), tal qual um fogueira em chamas, lhe consome o ser. Então, o Príncipe da Paz, o Cordeiro manso, transforma-se num leão. Ele toma um chicote e, com a força das palavras e dos braços, destrói o circo financeiro armado. Derruba as bancas dos cambistas e brada: vocês transformaram a casa do meu Pai, que originalmente é um lugar de oração, em um covil de salteadores. Com essa atitude, Jesus aponta para o que deveria ser essencialmente a igreja: a casa do Pai amoroso, que pelo seu Filho resgatou da alienação um grupo de pessoas a fim de viverem fraternalmente e terem uma profunda relação uns com os outros e com aquele que os amou e os libertou para a glória do Seu nome! Os líderes religiosos, na intenção original de Jesus, foram comparados a pastores que cuidavam amorosamente das suas ovelhas. Deles se exigia uma vida exemplar, apoiada sobre a simplicidade, a fé, o amor, a esperança… A métrica que os julgava não era a do êxito social, mas a da profundidade espiritual, a da sabedoria e capacidade de entrega.

Deus renasce das cinzas, quando cada líder religioso, junto com suas igrejas, assume o santo compromisso de não se deixar levar por esta onda mercantilista. Deus é mais Deus quando homens e mulheres optam por dar suas vidas para construir o ideal pelo qual Jesus viveu e morreu. A presença de Deus é mais forte quando a Igreja vive sua essência de ser uma comunidade de fé e não um mercado de troca. O mercantilismo pode ser vencido! Mas isso somente acontecerá quando, eivados de indignação, cheios do Espírito de Jesus, também amarmos como Ele amou a casa do Pai, a tal ponto de não transformá-la em um covil de salteadores!

Eduardo Rosa Pedreira

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